Eu posso ser honesta com você?

Gabi Blenda
2 min readMay 28

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Eu faço arte para me conectar com as pessoas.

Para diminuir a sensação de que estou só, neste planeta de mais de 7 bilhões de pessoas.

Para me distrair do fim. Sim, o fim.
Inevitável, incontornável, imprevisível.

Minha vida tem sido uma longa fase de ciclos viciosos e estou me achando velha demais para continuar repetindo. Então num triste dia resolvi mudar e fazer tudo o que não conseguia fazer, adotei aquela vida vulgar.

Sou um tipo que prioriza o fim em si mesmo. Recompensas lá na frente não me motivam.

O salário no fim do mês não me motiva, por mais que precise.

Essa é a parte idealista-romântica em mim, a parte com defeito.

Transporte? Alimentação? Aluguel? Preciso de mais, de um motivo melhor que esse.

Então, para não repetir um ciclo de me livrar cedo demais de um trabalho que não gosto, mas preciso (e cansada de recorrer a caixas de chocolate como incentivo e fonte de prazer, enquanto faço um trabalho sofrível) comecei a me perguntar:

Como me motivar pra esse trabalho?
O que me motiva?

Eu sou uma pessoa que se importa com o sensível.
Como me importar com esse trabalho?

Entregar algo bom para o cliente.
Não o melhor, porque esse discurso capitalista nos desgasta.
Mas bom o suficiente.
Suficientemente bom basta, como diria o psicanalista Winnicott.

Vivi 7 anos de mercado de comunicação ouvindo sempre a mesma ladainha: entregue o seu melhor e a recompensa vem, vamos reconhecer o seu trabalho, o seu talento, a sua contribuição, você faz parte disso aqui.

Nunca me convenceu.
Nunca aconteceu.

Enquanto isso, eu e vários colegas com crises de ansiedade, tentando vencer esse jogo fadado a perder.

Jogadores motivados que somos.

Eu já estou uma jogadora toda bichada. Ficaria feliz no banco de reserva, mas ainda entro em campo e fico satisfeita quando no final do dia consigo comprar um pão e queijo na padaria ou tenho transporte pra ir pra um ensaio de teatro.

Este é um relato de domingo de manhã, enquanto tento fazer um trabalho que sei como fazer — sem o menor interesse e com a maior necessidade.

Sobre essas promessas vazias feitas pelo mercado de trabalho, o único lugar que vi isso se cumprir mesmo foi na arte; nas tardes, noites e manhãs de ensaio, onde mesmo tudo jogando contra, o “time” continua lá, em campo, sem desistir do jogo que parece perdido.

Depois de 7 anos de mercado de trabalho, eu finalmente assumi e reconheço: sim, o mercado de comunicação é fodido. Mas eu também estou insatisfeita, por motivos pessoais. Não faz mais sentido pra mim. E infelizmente, eu sou uma pessoa motivada por sentidos físicos e simbólicos.

Não tem fim este texto, porque eu ainda não encontrei a solução.

Não tem fim este texto, porque eu ainda não inventei uma solução.

Não tem fim este texto, porque eu ainda não cheguei ao fim.

Fazer de cada maldito dia um recomeço é tipo enxugar gelo. Seguimos enxugando.

Eu posso falar a verdade com você?

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Gabi Blenda

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