Espera II

Gabi Blenda
1 min readFeb 12, 2021
Photo by Annie Spratt on Unsplash

Hoje o coração está miudinho, como os grãos de açúcar espalhados na bancada da cozinha depois que você, displicente, preparou um café ligeiro pra te motivar na reunião no Zoom.

Fiquei pensando naquela música várias queixas de você. Mas não tem você nessa história. Você está segurando outra mão agora e eu sobrei, feito criança no parque assistindo o balão ir pra longe.

Angústia não cura com algodão doce. Estou aceitando engolir um boi inteiro. Eu vim pra reclamar, entende? Nem a terapeuta tem obrigação de aguentar. Talvez seja culpa dela apontar que os sintomas diminuíram. Culpa dela dizer que a queixa perdeu o brilho. Culpa dela convocar meus demônios.

Eu sei, não é culpa de ninguém. Isto é só um desabafo.

A espera está tamanha que não cabem em 1m60 de corpo. Eu teria que ter 2km de altura pra caber toda essa angústia.

Absolutamente tudo virou uma espera. Como os filmes na Netflix aguardando continuar assistindo, mas você nunca volta. Os deuses colocaram o filme da humanidade em pausa e esqueceram de terminar de assistir.

Mentira. Os deuses nunca esquecem.

-Alô? Um minutinho que já retorno a ligação.
-Tudo bem, eu espero…

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