Da próxima vez que comentar sobre um corpo

Photo by eluoec on Unsplash

Cada comentário sobre o corpo é um ataque à autoestima, à autoconfiança e ao direito de existir. Direito de ocupar espaço, de ser e estar no mundo. Um ataque com efeitos imediatos, que provoca danos ao sujeito-alvo e à todos que possuem um corpo.

Cada comentário sobre o corpo ignora toda a história por trás da superfície: os traumas de infância, os sonhos cultivados, as ilusões agarradas como um bote salva-vidas. Medo-culpa-rejeição que provocam insônia, falta de ar e taquicardia.

Você não sabe quantas vezes aquele corpo-alvo do seu comentário entrou em blogs de ana e mia (anorexia e bulimia, pros leigos). Quantas vezes tentou enfiar o dedo ou o cabo da escova de dente na garganta. Quantas vezes ouviu piadas de que após comer demais é só vomitar que resolve.

Você não sabe quantas horas em jejum intermitente — 12, 14, 16, 18, 24. Quantas refeições foram puladas. Quantos momentos entre amigos evitados porque o ambiente incluía comida.

Você não sabe quantas vezes essa pessoa ficou sem almoçar. Quantas noites foi dormir disfarçando a fome com água. Quantas vezes se recriminou por ter comido o que gosta.

Você não sabe quantos comentários ouviu da tia, da avó, da colega de escola, dos colegas de trabalho, de todos os chefes, da vizinha, de um desconhecido na academia. Você não sabe quantas calorias foram calculadas.

Você não sabe de nada disso e nem poderia. Porque você não escuta. Você só enxerga. Você só repara no corpo. Foi isso que você aprendeu a fazer. Foi assim que te ensinaram. Foi isso que fizeram com você.

Você também já recebeu um comentário. Alguém que te reduziu a uma parte minúscula, que te separou em pedaços como carne no frigorífico. Uma ruga ao redor dos lábios, os fios brancos, um músculo específico— peito, coxa, abdômen, glúteo, tríceps. O que eu faço com isso? Aceita. Deixa seu corpo ser o que ele é. Deixa você ser o que é.

Eu sei, você vê corpos o tempo todo. Estão em todos os lugares. Televisão, novelas, filmes, séries, programas de fofoca, sites, capas de revista, propagandas, redes sociais. Um bombardeio de corpos que nem parecem humanos.

Todas essas imagens explodem na cabeça quando alguém se olha no espelho. Não tem como competir com isso. Não precisa ser uma competição.

Eu sei, alguém te convenceu que você não pode se sentir confortável. Mas você pode. Você pode comer o que gosta, culpa free. Você pode dançar desajeitado. Você pode gargalhar mesmo que provoque rugas. Você pode ir à praia de biquíni ou sunga. Você pode usar a roupa como um acessório, em vez de capa da invisibilidade. Você pode até ficar sem roupa, e à vontade, na frente de outra pessoa. Em frente à câmera.

Eu sei, você não faz por mal. Nunca é por mal. É invigilância. Hábito. Reprodução cega, inconsciente, inconsequente. Uma cultura de ódio ao corpo.

Amar é um atrevimento. Tudo o que remete ao corpo é carregado de culpa religiosa. Mexer a raba, usar biquíni, comer açúcar-carboidrato-gordura, ficar nua, masturbação, sexo, orgasmo. Toda uma sociedade te dizendo não faça isso!

Cada comentário de repressão invoca, como um feitiço, essa estrutura. Cada comentário disfarçado de boa intenção, de cuidado com a saúde, de zelo pela moral e bons costumes. Reputação: o que as pessoas vão pensar e falar de mim?

Você também já recebeu comentários dolorosos. Não seja esse tipo de pessoa. Não reproduza. Não reprima. Não invoque o feitiço.

Da próxima vez que quiser fazer um comentário sobre um corpo: não faça.

Não deixe isso falar por você. Você é mais do que a sua imagem e aparência podem contar. Você é mais do que um corpo. As outras pessoas também.

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Gabi Blenda

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